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Vale do Ribeira


Achados arqueológicos e a própria história nos conta que foi através da necessidade de criar artefatos, ferramentas e adornos para uso cotidiano, rituais de celebração e passagem que muitas técnicas foram desenvolvidas e compartilhadas por comunidades indígenas antes da colonização do Vale do Ribeira.

O Território 

Para falarmos sobre o Vale do Ribeira, precisamos falar do Rio Ribeira de Iguape que nasce no Parque Nacional dos Campos Gerais, em Ponta Grossa, norte do Paraná e atravessa a região sul do estado de São Paulo desaguando no oceano atlântico no município de Iguape. Com aproximadamente 470 km de extensão, a bacia hidrográfica do Vale do Ribeira acolhe 31 municípios, sendo 22 paulistas e 9 paranaenses. 

A imensidão do território se percebe na paisagem, entre planalto (alto e médio Ribeira) e litoral(baixo Ribeira) a região guarda o maior remanescente de Mata Atlântica do país, equivalente a 20% do bioma, além de ecossistemas aquáticos e costeiros com rios, estuários, mar, mangues restingas e dunas, sendo conhecido também por suas cavernas calcárias. Na dissertação “Lá no Alto, o barro é encantado: a cerâmica do Alto Vale do Ribeira.” de Amanda Magrini ela descreve o território: 

“Devido sua grande extensão territorial e rica diversidade ecológica, o Vale do Ribeira é subdividido por conjectura entre: Alto, Médio e Baixo Ribeira. A primeira porção do Alto Vale, de paisagem montanhosa, terreno rochoso diverso e rios de inúmeras corredeiras, formam erosões de vales profundos e transporta grandes volumes de sedimentos. O clima dessa região serrana é subtropical úmido e a Mata Atlântica desenvolve-se densamente com árvores de grande porte. Já na porção intermediária do Médio Ribeira, o rio desce mais brando e navegável, constituindo vales mais abertos e extensões mais planas de terrenos, sendo essa a área de transição entre as outras duas formações . E, por fim, o Baixo Ribeira formado por planícies e inundações com áreas de transição entre mata, manguezais e restinga, caracterizado principalmente pela paisagem litorânea onde o rio Ribeira deságua no Atlântico”.  

Crédito da foto: Camila Pinheiro

Atualmente a região acolhe cerca de 50 comunidades quilombolas onde 34 delas estão localizadas no estado de São Paulo, sendo a região com maior concentração de quilombos do estado. Também habitam o território comunidades indígenas como os Guaranis das etnias Mby’a e Kaiowá além dos Kaingang,Tupinambás e Tupiniquins, compondo a maior população indígena do estado de São Paulo. Na parte costeira e litorânea cerca de 80 comunidades tradicionais caiçaras ocupam bairros como o da Barra do Ribeira. A partir dessas informações conseguimos com facilidade entender quem são os responsáveis por preservar e cuidar do maior remanescente de Mata Atlântica do país, comprovando a importância de comunidades tradicionais na proteção da terra e das águas, sendo o artesanato um instrumento essencial para valorização, geração de renda e permanência das comunidades que habitam a região. 

Como nasce um polo criativo?

Assim como a nascente de um rio, a origem de uma tradição artesanal em um território imenso como o Vale do Ribeira, pode ser múltipla. Achados arqueológicos e a própria história nos conta que foi através da necessidade de criar artefatos, ferramentas e adornos para uso cotidiano, rituais de celebração e passagem que muitas técnicas foram desenvolvidas e compartilhadas por comunidades indígenas antes da colonização do território. A partir do domínio dessas técnicas, outros experimentos eram desenvolvidos e cada comunidade ia ampliando seu repertório estético e funcional para cada objeto criado, se desdobrando em tradições de uso e memória material de cada etnia. Sobre essa confluência de saberes Amanda Magrini comenta em sua dissertação: 

“A pintura utilizada pelos Guarani, não era comum entre os Kaingang, assim como o uso de urnas para enterrar seus mortos. Quando conhecemos a cerâmica produzida no Alto Ribeira, encontramos tanto aquela decorada com pintura, semelhante à descrição de Krone (sobre a cerâmica Guarani), como vasos lisos sem nenhuma decoração e utilitários robustos muito bem polidos, como aqueles descritos por Robrahn (sobre os artefatos Kaingang). Com isso, reiteramos que a atividade local é um resquício e uma miscelânea resultante das ocupações indígenas ceramistas que dominaram a região, antes do processo colonizador. O que demonstra sua resistência na manutenção dos conhecimentos práticos e cósmicos e incorpora esse legado ancestral indígena na prática atual”.  

Crédito da foto: Camila Pinheiro

Na cerâmica, por exemplo, a técnica dos rolinhos ou acordelamento é uma herança Guaraní que é utilizada pela maioria das artesãs da região até os dias atuais. Outra sabedoria ancestral utilizada tanto na extração do barro quanto de fibras vegetais como a taquara e a taboa é a fase da lua, devendo ser feita a retirada dessas matérias primas na lua minguante, segundo as artesãs da região.  

A observação do bioma, o olhar direcionado ao que se tem em abundância e o manejo adequado da matéria prima para que não falte são indispensáveis e desses cuidados os povos das águas e do campo entendem bem. Por esse motivo se relacionam de forma muito diferente com o meio ambiente e conseguem viver e manter essas tradições sem a lógica exploratória colonial. Apesar da constante resistência das comunidades tradicionais, a região sofre há séculos com o extrativismo mineral e vegetal. Uma das principais atividades da região durante a colonização foi a mineração, por ser uma região rica em ouro e outros metais.  

Atualmente os bananais ganham destaque na paisagem tornando o Vale do Ribeira um dos maiores pólos produtores de banana do Brasil. A bananeira “morre” após dar frutos e se reproduz através de brotos que surgem da terra próximo à planta matriz, gerando por consequência a demanda de um destino sustentável para os resíduos das plantações sendo o principal deles o tronco da planta. Assim, mulheres, em sua maioria agricultoras, tornaram essa demanda um novo negócio fundando a BANARTE em 1999, associação de artesãs localizada em Miracatu, pioneira do trabalho com a fibra da bananeira. 

Como se mantém um processo criativo?

Sabe-se da origem ancestral e pré-colombiana das principais atividades artesanais da região do Vale do Ribeira e da perpetuação de saberes através de mestras como Dona Sinhana de Itaoca(cerâmica), Mestra Maria de Itariri (cestaria), Mestra Esperança do Quilombo Sapatu (palha da banana) ou Dona Úrsula, conhecida por ser uma espécie de caça talentos da cerâmica, incentivando e dando aulas de artesanato e cerâmica para população de Apiaí. Essas e tantas outras figuras importantes para a história do artesanato na região ganham força quando apoiadas por instituições públicas e privadas que vislumbram nas atividades artesanais uma potente fonte de renda e autonomia financeira para população do território. Sendo assim, cursos que chegaram na região do Vale do Ribeira como os profissionalizantes da SUTACO (governo do estado São Paulo), SEBRAE ou programas de erradicação do trabalho infantil com atividades formativas e artesanais, incentivaram e colaboraram na manutenção de técnicas e adesão de jovens e adultos que vivem no território. 

Espaços coletivos, como associações, cooperativas, lojas e museus também são extremamente importantes para a constância de atividades formativas, vendas das peças produzidas, conscientização e valorização da cultura contida em cada atividade artesanal. A casa do Artesão em Apiaí, é um bom exemplo de espaço de manutenção, preservação e memória do artesanato do Vale do Ribeira como conta a pesquisadora Amanda Magrini: 

“A disposição do acervo, a venda e a recepção foram cuidadosamente pensadas para valorizar e centralizar os objetos mais significativos, e que representam a identidade da cerâmica da região. A Casa também expõe o registro fotográfico de várias gerações de artesãs, demonstrações técnicas e trabalhos desenvolvidos por diferentes pesquisadores sobre a atividade. Cabe ressaltar que a sala expositiva principal teve o nome sugerido por Guacira(curadora) como Sala das Mestras, em homenagem às várias gerações de artesãs e como forma de profissionalizar a atividade”.  

Na região também encontramos espaços idealizados por núcleos familiares como é o caso do Ateliê Oleiras Mendes, composto por Marli e Bianca Mendes(mãe e filha) ou o Arte Looze, que começou com Diná e Jaqueline Looze(mãe e filha) e ampliou-se com a parceria dos vizinhos Loide e Moacir, que trouxeram também o seus modos de moldar o barro. O espaço também convida outros artesãos da região, como Abraão de Itaoca, para expor e vender suas peças no espaço, criando assim uma rede de artesãos como conta Jaqueline Looze em vídeo: 
“A gente notou que às vezes a pessoa vinha procurar uma peça nossa, um copo, por exemplo, e acabava levando uma panela, um vaso…Ou vinha buscando só a panela, então o nosso lucro seria bem menor. A pessoa pegava, ia embora só com a panela. A gente ficava contente porque tínhamos vendido a peça do outro artesão. Aí passava algum tempo -acontece isso até hoje- o cliente volta com outras pessoas e aquelas outras pessoas acabam comprando a minha peça. Então a gente consegue formar uma rede. Se eu não tivesse a panela, talvez aquele cliente nunca mais voltasse, não trouxesse mais pessoas. Acredito que o conjunto, essa união que acontece no Vale tem muito a ganhar, tem muito a acrescentar pra todo mundo. Porque sempre, quem vem, volta”.

Também merece destaque as associações de artesanato, de composição majoritariamente feminina, que unem, movimentam e articulam a autonomia de dezenas de mulheres do Vale do Ribeira, algumas delas são: a Associação Taboa e Arte(Ilha Comprida), BANARTE(Miracatu), Arte nas mãos(bairro Encapoeirado em Apiaí), Associação de Artesãs do Vale do Ribeira(Apiaí) e o espaço Casa de Taipa, referência em venda de artesanato no Quilombo Sapatu. É no trabalho coletivo e no cuidado com a terra e com as águas que artesãs e artesãos sustentam o fazer manual e conseguem manter famílias e desejos de vida, quebrando a lógica colonial do individualismo. 

Fotos de divulgação Artesol

Vale do Ribeira


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