São Gabriel da Cachoeira – Amazonas
O processo de produção artesanal em São Gabriel da Cachoeira é milenar, acompanha o processo de ocupação dos primeiros povos que povoaram o território e permanece até os dias atuais como atividade cotidiana e geradora de renda.
O Território
São Gabriel da Cachoeira está localizado no extremo noroeste do Brasil, a 852 km de Manaus, na tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Venezuela, região também conhecida como “cabeça do cachorro” por sua geografia que se assemelha à cabeça do animal. São aproximadamente 24 horas de Manaus ao município em transporte fluvial, existem também alguns voos semanais que levam a região. Falar desse território implica diretamente em falar sobre os povos indígenas que habitam o país desde antes de sua colonização e perpetuam seus costumes e tradições resistindo a cultura ocidental que impõe, junto ao capitalismo, maneiras de se relacionar com o meio ambiente, ver e viver a vida.
A região é ocupada por 23 etnias diferentes espalhadas pelo vasto território, mas frequentemente se deslocam para o perímetro urbano do distrito para resolver questões de saúde, benefícios governamentais, celebrações, vendas de produtos artesanais, etc. Considerado o terceiro maior município do Brasil em extensão, com pouco mais de 51 mil habitantes, cerca de 90% da população de São Gabriel da Cachoeira é composta por povos indígenas de diversas etnias, entre elas os Arapaço, Baniwa, Barasana, Baré, Desana, Hupda, Karapanã, Kubeo, Kuripako, Makuna, Miriti-tapuya, Nadob, Pira-tapuya, Siriano, Tariano, Tukano, Tuyuka, Wanana, Werekena e Yanomami, sendo considerada a cidade mais indígena do país.

Boa parte dessas comunidades margeiam os Rios Uaupés, Içana, Xié e Tiquié que são afluentes do Rio Negro, que, por sua vez, é um dos principais afluentes do Rio Amazonas. No município, além do português, existem 3 línguas co-oficiais, são elas: Nheengatu, Tukano e Baniwa, instituídas por lei municipal. Parte do território compõe o Parque Nacional do Pico da Neblina, região que contém o pico mais alto do Brasil, sendo a Floresta Amazônica o bioma que cobre todo o território.
Como nasce um polo criativo?
O processo de produção artesanal em São Gabriel da Cachoeira é milenar, acompanha o processo de ocupação dos primeiros povos que povoaram o território e permanece até os dias atuais como atividade cotidiana e geradora de renda. Dentro da tradição indígena da região, a troca de saberes aparece como princípio básico dentro das relações comunitárias, seja através da oralidade ou da prática.
Rituais milenares como o Dabucuri, celebram e agradecem o que é provido pela natureza e promovem dias de imersão e partilha, como diz Rosilene F. Pereira em seu artigo CERIMÔNIA DO DABUCURI: UMA REFLEXÃO SOBRE PATRIMÔNIO IMATERIAL DO ALTO RIO NEGRO:
“O Dabucuri é uma cerimônia milenar que ocorre há anos na região do Alto Rio Negro. Durante a cerimônia ocorrem trocas de saberes e conhecimentos que envolvem cantos, música, dança, bebida, alimentos, histórias, ornamentos, ritos de passagens, momentos de aliança política social e arranjos matrimoniais.”.
Os rituais tradicionais do Dabucuri podem ter duração de mais de uma semana, nesse período homens e mulheres adentram a floresta em busca de matéria prima para confecção de objetos utilizados diariamente pelos povos locais como cestarias, abanos, bancos sagrados, instrumentos musicais ritualísticos, peneiras, adornos, panelas de cerâmica, entre tantos outros objetos artesanais que representam tradições, sendo de uso cotidiano ou parte de rituais.

“Essa educação dos cinco sentidos – olfato, paladar, tato, visão e audição – era dada por meio do “gesto técnico”: este conceito se refere à capacidade humana, por meio de gestos aprendidos, de manejar e modificar objetos. Não é fácil fazer um arco e flecha, uma canoa ou moldar e cozer um vaso de barro. A Educação Indígena utiliza a gestualidade para transmitir os conhecimentos que permitem que a vida diária se perpetue” (Funari e Piñon, 2011).
Nos rituais, a música e a dança se fazem presentes e diferentes instrumentos como o yukupuri, feito de embaúba, ao ser batido no chão emite um som surdo servindo de bastão de ritmo utilizado para cadenciar danças e cerimônias. Desta mesma forma inúmeros instrumentos são confeccionados com matérias primas advindas da floresta, como a flauta jurupari tocada tradicionalmente por homens e feitas a partir do tronco da palmeira paxiúba, japurutu (flauta de taboca), a flauta pã (tubos de taquara), maracás, ñama dupoa (flauta de cabeça de veado), ñama koã (flauta de osso de veado), kuware (casco de jabuti); weru-weru hirikoa (flauta de osso de anta), perurige (flauta do cariço) entre outros tantos instrumentos artesanais que acompanham a história das comunidades indígenas da região.
São Gabriel da Cachoeira também é conhecida por suas tramas e trançados feitos com fibras naturais que são utilizadas na confecção de cestarias, tapetes, peneiras, abanos, tipitis e biojoias. As principais fibras utilizadas são arumã, utilizada pelos Baniwa e outras etnias, a fibra do tucum e piaçava, bastante utilizada pelos Tukanos, além do cipó titica utilizado principalmente na comunidade de Maturacã. A região conta com uma rica produção de cerâmicas, sendo a comunidade de Taracuá importante centro de produção do Alto do Rio Negro junto a associações como a AMIRT (Associação das Mulheres Indígenas da Região de Taracuá). A produção em cerâmica é uma atividade predominantemente feminina em várias etnias, como Tukano, Curipaco, Baré e Baniwa, com rica variedade de argilas em tonalidades vermelha, preta e branca. Dentre as mestras da cerâmica destaca-se Dona Anita, mestra de Tacaruá, conforme relatado por Yasmin Pirodhio Mota em seu TCC para UNICAMP(p.51):
“Minha sogra, a sua avó, era a única que trabalhava com cerâmica em Taracuá. E ela ensinou primeiro à sua tia Regina. Depois a sua avó, a sua tia Regina nos ensinaram e nós, as noras espalhamos esse trabalho para outras mulheres de Taracuá e de outras comunidades. Aprendemos todo o processo de fazer a cerâmica e suas regras, as pinturas (grafismos) também, suas regras e seus significados. E com o passar do tempo, nós mulheres daqui de Taracuá e regiões fomos aprimorando nossas técnicas de fazer cerâmica, através de compartilhamentos de saberes (oficinas de troca de experiências) umas com as outras.”.
Crédito das fotos: Fellipe Abreu
Outra tipologia muito utilizada na região é o artesanato em madeira, sendo a mirapiranga, madeira prima do pau Brasil, uma das mais utilizadas para criar remos, pequenas embarcações e representações de animais da fauna local. Os Tukanos são mestres em esculpir com machado os chamados Kumorõ, banquinhos considerados sagrados, pois teria sido em banco similiar que Deus teria criado a humanidade. Em boa parte desses objetos e artefatos observamos grafismos indígenas transmitidos de geração em geração, através dos quais parte das identidades étnicas dos povos da região se perpetuam.
Como se mantém um processo criativo?
Uma das formas de perpetuar e expandir um conjunto de conhecimentos tradicionais é a troca de saberes, fruto de um empenho coletivo para sua difusão. Essa troca pode acontecer de diferentes formas, sendo uma delas a luta e articulação comunitária, que pode resultar na formação de associações, cooperativas, coletivos e espaços que unem detentores de saberes dispostos a compartilhar técnicas e vivências.
Em São Gabriel da Cachoeira a FOIRN (Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro), criada em 1987, teve como principal bandeira a demarcação de terras indígenas e preservação da cultura dos povos indígenas da região como mencionam no site da federação:
“A FOIRN nasceu com o lema “Terra e Cultura”, tendo como principal bandeira de luta defender o território e valorizar a cultura dos povos que há pelo menos 3 mil anos habitam a região. Valorizar esse território, a floresta, e seus habitantes é a nossa missão.”.

A bandeira da cultura originária vem sendo sustentada e mantida desde sua fundação através de oficinas e cursos, mas foi em 2002 com a criação do DMIRN (Departamento de Mulheres Indígenas do Rio Negro) que se consolidou a base das atividades artesanais na região. A partir da observação das dezenas de associações artesanais no território e das dificuldades encontradas no escoamento das produções artesanais, principalmente por comunidades mais afastadas, o DMIRN entre 2003 e 2004 criou um fundo rotativo com a finalidade de incentivar o artesanato local e suas associações. O incentivo aconteceu com criações de feiras para exposição e venda dos trabalhos produzidos pelas diversas comunidades, e se consolidou com a inauguração da Casa Wariró, localizada no perímetro urbano de São Gabriel da Cachoeira. Segundo Luciane Lima do povo Tariano:
“Aqui não é somente uma loja, a gente não só vende o artesanato, a gente tá mostrando a cultura e a história dos povos. A gente sempre fala que a Wariró, ela não é uma loja, é a casa dos produtores indígenas do Rio Negro.”
Sendo assim, podemos pensar que o artesanato dentro do território, além de importante ferramenta de geração de renda familiar, está envolvido no movimento político e emancipatório de mulheres indígenas, lhes dando voz e visibilidade.
A música do Boi Garantido, brinquedo popular símbolo de resistência e identidade cultural de Parintins, diz o seguinte sobre as Artesãs Indígenas:
“Oniwasab’I
Numiã kura, Aminsa, Assai
Yanomami, Wat’Amã
Tecelã Sateré-Mawé
Em suas mãos o tucum e o Arumã
Jamais vão se calar
Ceramistas baniwa
Moldam no barro
A força do povo indígena
Na plumária Hiskariana
Os cocares ganham vida na arte milenar
Das mulheres de fibra e coragem
Que adornam e vibram o maracás
Ohpekõ diâ Mahsa Numiã
Artesãs indígenas
Ensinam suas filhas
A extrair a fibra da palha do Buriti
A geometria do casco do jabuti
Em cada pele um grafismo
Contando uma história
Em cada trançado
Resistência e memória
É o poder das sementes que brilham
Nas mãos das Artesãs
Mestras do boi Garantido
As parentas que fazem
A arte que vem do coração da Floresta
E encanta os olhos do mundo…”
Crédito das fotos: Fellipe Abreu
















