Icoaraci – Pará
Os igarapés de Icoaraci são abundantes em barro argiloso, fato que por si só oferece um ofício ao povo da região. O trabalho com o barro inicia-se com os povos originários que habitaram o território no período pré-colonial.
O Território
Icoaraci está localizada a 20km do centro de Belém, sendo um dos 8 distritos que compõem a região metropolitana da capital do Pará, com população aproximada de 300 mil habitantes. O nome da cidade em sua etimologia Tupi-Guarani traz consigo a paisagem da região: “Mãe de todas as águas”.
A cidade é banhada pelas águas da Bacia de Guajará, um estuário formado pelo encontro da foz dos rios Guamá e Acará, que deságuam no Oceano Atlântico através da Baía do Marajó. A região é entrecortada por igarapés ricos em argila, matéria prima que levou a região a ser reconhecida nacionalmente por suas peças em cerâmica. Vestígios arqueológicos remontam à ocupação de territórios que passam pelo Rio Tapajós, Santarém chegando até a região estuarina da Ilha do Marajó, há pelo menos 3000 anos, tornando a cerâmica indígena e seus grafismos a principal referência para os atuais artesãos e artesãs de Icoaraci.

Dentro do território 90% dos artesãos e artesãs se concentram no bairro do Paracuri, com aproximadamente 80 ateliês e cooperativas que produzem diariamente centenas de peças de cerâmica por dia. A repórter Mariana Castro comenta sobre o bairro de Paracuri em reportagem para o Brasil de Fato:
“Lá, por onde se anda, pessoas estão carregando argila, moldando ou secando peças ali mesmo, na calçada de casa”.
Como nasce um polo criativo?
Os igarapés de Icoaraci são abundantes em barro argiloso, fato que por si só oferece um ofício ao povo da região. Quando pensamos que do outro lado do rio, está a Ilha do Marajó, conseguimos entender o início e desenvolvimento das atividades ceramistas no município. O trabalho com o barro inicia-se com os povos originários que habitaram o território no período pré-colonial, resquícios mostram que usavam a técnica, tradicionalmente indígena de acordelamento, mais conhecida por pavio, e junto à argila, misturavam cascas de árvores ou cascas de cerâmicas trituradas no pilão, para desengordurar a massa. Para fazer o acabamento e decoração utilizavam o engobe, mistura com argilas líquidas para coloração das peças. Essas e outras técnicas foram pesquisadas e estudadas por Mestre Cardoso, ceramista, filho de Lucila, que também trabalhava com o barro e era descendente do último povo marajoara, os Aruã.

A relação desde a infância com a cerâmica levou Mestre Cardoso a desenvolver importantes pesquisas junto a equipe do Museu Emílio Goeldi, que os levaram a conseguir reproduzir 50 peças, utilizando argila, pigmentos e técnicas muito similares aos antigos habitantes da Ilha de Marajó. As réplicas ficaram tão perfeitas que a equipe de museologia cedeu certificado de autenticidade técnica e algumas delas estão expostas em museus e galerias do Brasil e do mundo.
Nesse momento de pesquisas profundas sobre a cerâmica indígena marajoara e tapajônica, artesãos e artesãs de Icoaraci, que já trabalhavam com o barro, começaram a adotar técnicas, como o uso do engobe e a gravação de grafismos ancestrais nas peças produzidas. Durante o processo de reelaboração estética das peças surgiram mestres como Cabeludo, que dominou o saber da coleta e preparo do barro, e Zé Espanhol que iniciou e difundiu o uso do torno, trazendo a técnica da cerâmica colonial europeia. Dessa miscelânea de influências marajoaras, tapajônicas e europeias, surge a cerâmica Icoaraciense, atualmente reconhecida como Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial do município de Belém. Sobre essa mistura, Mestre Guilherme Santana, ceramista e educador comenta:
“Fusão entre a cerâmica europeia onde foi introduzida a iconografia das culturas locais. A partir do encontro dessas duas cerâmicas ela foi sendo modificada, incorporando outros elementos, criando outros tipos de peças e esse mosaico todo forma o que hoje conhecemos como a cerâmica icoaraciense, que até pouco tempo o pessoal falava “cerâmica marajoara”, mas que hoje tentamos reparar essa questão”.
Como se mantém um processo criativo?
O impacto das pesquisas de Mestre Cardoso na região foi tão grande que em 1996 foi fundado o Liceu Escola Mestre Raimundo Cardoso visando o ensino, preservação e pesquisa sobre a cerâmica através de um programa do governo municipal de desenvolvimento sustentável. Segundo Janice Lima, ex-diretora da instituição:
“O Liceu foi pensado para atender os alunos, filhos dos ceramistas, dos produtores locais de Icoaraci. Essas oficinas permitem que o aluno conheça toda a cadeia produtiva da cerâmica, mas é uma escola de educação formal. A matriz curricular do Liceu é diferenciada porque ela tem essas oficinas da cultura ceramista”.
Na escola, dentro da galeria de arte, mestres e mestras como Justo, Ademar, Idalina, Rosemiro, Inês, Crispiniano, Cabeludo e Zé Espanhol são homenageados e seus trabalhos e contribuições para a cerâmica icoaraciense, eternizados. Além deles, Mestras como Maria Lúcia Cordeiro e Mestre Guilherme Santana dão aulas há mais de 15 anos para crianças do Liceu usando a cerâmica para trabalhar o currículo formal, ensinando geometria, por exemplo, através do barro.

Mas o que seria do Liceu e do município sem a paciência de seus mestres e mestras? A arte do barro não é um ofício que se ensina apenas com teoria, como diz Rosemiro em entrevista:
“Você não consegue aprender isso aqui se você não praticar. Não adianta nada eu lhe dizer como é porque isso aqui é uma questão, sabe de quê? De coordenação. Então só quem coordena seu corpo é você mesmo porque pra tudo tem uma força, né? Se eu pegar um bolo de barro maior, é outra força. Quer dizer, as forças das nossas mãos que coordenam o tipo de peça que a gente vai fazer. Então é essa força aí que é difícil de passar para as pessoas. Então a pessoa tem que praticar. Se os oleiros não derem oportunidade, ninguém aprende. (…) Eu conto 38 mestres que saíram daqui. Hoje em dia todos são mestres pela oportunidade que eu dei, né?”.
Dentro dos ateliês o que se percebe é uma relação de cooperativismo comunitário onde todos se ajudam quando precisam. Artesãos e artesãs trabalham em diversos ateliês ao mesmo tempo, a depender da demanda de encomendas e produções diárias. Nesse contexto de desenvolvimento coletivo, instituições como COARTI (Cooperativa de Artesãos de Icoaraci) e SOAMI (Sociedade de Artesãos e Amigos de Icoaraci), surgem a fim de fortalecer e consolidar espaços e conquistas.
Na orla de Icoaraci, encontramos a Feira de Artesanato do Paracuri que, com espaço fixo, se tornou um dos principais pontos turísticos da cidade e serve de vitrine para artesãos da cidade apresentarem suas produções. Instituições como o Museu de Artes da Amazônia, o Emílio Goeldi e o Ecomuseu da Amazônia também cumprem um papel importante na preservação e valorização da tradição ceramista da região.
A história da cerâmica icoaraciense traz consigo a reflexão sobre a potência em cultivar a ancestralidade do próprio povo, mas também de estar aberto a atravessamentos e influências de povos imigrantes que também ocuparam o território e contribuíram com suas técnicas e saberes, permitindo que algo único surja a partir dessa amálgama cultural.
Fotos de divulgação Artesol








