Sobre as criações
“Pintura de agulha é quando a gente desenha a peça. Você pega a peça e desenha, igual a um quadro, e vai bordando com vários pontos” – Maria de Lourdes Rosa Freitas
O bordado aprendido com a mãe de Lourdes, de origem portuguesa, era de tons pastéis e desenhos singelos, e nas mãos da filha e de todas as suas aprendizes, foi “tropicalizado”, ganhando cores mais fortes, e os desenhos, maior amplitude, crescendo para acolher tons e formas da fauna e flora brasileiros.
O bordado surge, primeiro, na mente. Os desenhos são imaginados e vão “saindo de dentro”, como diz Lourdes, sendo feitos à mão no tecido, em geral algodão, linho ou brim. Os motivos em geral são flores, borboletas, folhas e animais da fauna brasileira, desenhados por Lourdes, Alice e Isis, suas filhas. Isis, veterinária de formação, aproveita os conhecimentos da profissão para elaborar os desenhos e criar coleções habitadas pelos animais nacionais.

Desenhada a peça, passa-se à etapa do bordado, no qual entram em cena uma diversidade de pontos: ponto cheio, ponto atrás, nó (portugues), mesclado, matizado e por aí vai. As cores são escolhidas pelas próprias artesãs, que selecionam as peças que desejam bordar e a combinação de cores para cada uma.
A ordem das etapas depende do tipo de produto, pois alguns produtos de mesa são antes bordados e depois costurados, como as almofadas. Já as peças de vestuário são costuradas antes de serem desenhadas e bordadas, para que os bordados sejam feitos de modo a favorecer as peças. As costuras são feitas por artesãs do próprio grupo e quando prontas, as peças são lavadas, passadas, conferidas, etiquetadas e embaladas. Frequentemente uma peça viaja vários quilômetros, sendo desenhada em uma cidade, enviada até outra para ser bordada, devolvido para finalização e então enviada para os clientes, espalhados pelo Brasil todo.
Todo esse processo faz com que cada peça seja única: os desenhos são feitos à mão, diretamente no tecido, e o bordado conta a dedicação de mão e mentes habilidosas, e a combinação de cores é fruto da inspiração de cada artesã, que criam peças de um belo colorido, que surpreendem pela vivacidade.
Crédito das fotos: Rebeca Chiarini
O grupo tem um amplo acervo de peças para casa e de vestuário. Para casa, produzem colchas, almofadas, peseiras, bastidores e quadros. De vestuário produzem blusas, jaquetas, vestidos, macacões, batas, camisas, sapatilhas e bolsas. A linha infantil conta com vestidos em duas linhas: floral e lúdica, com cantigas e lendas do folclore brasileiro. Com os panos e linhas que sobram, elas fazem bonecas, que são vendidas junto aos vestidos infantis, aproveitando, assim, todo a matéria-prima e reduzindo o resíduo gerado.
Sobre quem cria
“A gente vai criando, vai saindo de dentro da gente” – Lourdes
Maria de Lourdes Rosa é a fundadora do grupo, nascida em Belo Horizonte, capital mineira, aprendeu o ofício de bordadeira com a mãe, de origem portuguesa, aos seis anos. A mãe era ótima em desenho, e bordava de modo a dar vida aos animais, plantas e formas que desenhava, técnica chamada de pintura de agulha. Lourdes e as irmãs aprenderam a desenhar, costurar, bordar, tricotar e fazer crochê. Lourdes tomou gosto pelo que era uma brincadeira entre irmãs e levou o ofício à frente. Aos 18 anos tirou a licença para expor na feira da Praça da Liberdade em Belo Horizonte, da qual é uma das fundadoras.

Além de bordar, sua paixão sempre foi ensinar o bordado, assim, repassou a técnica a vizinhas, amigas e às filhas, Alice e Isis que, ao crescerem nesse ambiente encantado por desenhos e bordados, a ele aderiram naturalmente tornando-se elas mesmas artesãs. Michele, nora de Lourdes, auxilia na comunicação, nas fotos e oficinas do grupo. Claudia também é nora, ela ajuda a bordar, a tirar as fotos com as peças e na logística, levando e buscando produções em todo Estado. O grupo articula cerca de 60 artesãs de quatro cidades de Minas Gerais: Ouro Preto, Viçosa, Belo Horizonte e Nova Lima, onde Lourdes mora atualmente e lá fica o ateliê do grupo.
A história da família explica tamanha expansão do grupo: para Ouro Preto Lourdes se mudou aos 22 anos e lá repassou a técnica da pintura de agulha a muitas mulheres e garotas, sobretudo da zona rural, onde moram grande parte das bordadeiras que trabalham para o grupo. Em Viçosa morou Isis quando foi fazer faculdade, ela e a mãe repassaram a técnica para mulheres que passaram a compor o grupo, algumas continuam trabalhando com elas até hoje. Em Belo Horizonte mora Alice, que cuida da parte administrativo e financeira do coletivo, e onde elas com frequência participam da Feira de Arte e Artesanato da Avenida Afonso Pena, que acontece semanalmente.
Crédito das fotos: Rebeca Chiarini
O repasse do bordado, no entanto, não se restringe a essas localidades, sendo frequente que Lourdes viaje para dar oficinas para mulheres como forma de geração de emprego, renda e bem-estar.
“Todas as mãos são importantes. É uma corrente, em que todos os elos são importantes, senão eles arrebentam”.
Sobre o território
O coletivo reúne artesãs de Nova Lima, Belo Horizonte, Ouro Preto e Viçosa, cidades que refletem diferentes paisagens e modos de vida de Minas Gerais.
Em Nova Lima, onde está o ateliê do grupo, a natureza da serra e a herança da mineração convivem com o ritmo tranquilo de uma cidade que integra a região metropolitana de Belo Horizonte. É dali que parte grande parte da produção e da articulação das bordadeiras.
Belo Horizonte, capital do estado, é o ponto de encontro com o público e o lugar onde o grupo participa de feiras e mantém suas conexões com outros coletivos e iniciativas culturais.
Em Ouro Preto, cidade histórica de tradição artesanal, o bordado se espalhou entre mulheres da zona rural, que encontraram na técnica da pintura de agulha uma forma de trabalho e expressão.
Já Viçosa, localizada na Zona da Mata mineira, combina o ambiente acolhedor do interior com a presença de uma importante universidade, a UFV, que movimenta a vida cultural e econômica da cidade. Cercada por montanhas e vegetação abundante, Viçosa abriga artesãs que mantêm viva a prática do bordado.
Entre o urbano e o rural, o grupo costura trajetórias e territórios, fortalecendo redes de mulheres que transformam o fazer artesanal em identidade, renda e continuidade cultural.















