“Tudo é uma raiz, essa memória afetiva, na vida a gente vai e volta nela”.
Marcieli Natali
Sobre as criações
A cidade de Cunha, no Estado de São Paulo, já é muito conhecida pela produção de cerâmica de alta temperatura. O grupo Cerâmica da Vargem do Tanque se destaca pelo resgate da técnica primitiva, com modelagem manual e queima artesanal.
Iniciaram seus trabalhos em 2017, por meio de um projeto executado pelo ICCC – Instituto Cultural da Cerâmica de Cunha, que promoveu a formação de mulheres agricultoras da zona rural da cidade para produção de peças em cerâmica a baixas temperaturas, assim como tradicionalmente faziam as paneleiras de Cunha.
O projeto de valorização da cultura local formou, em sua primeira turma, 20 artesãs e, posteriormente, mais sete, formando também multiplicadores desse saber. O grupo produtivo é constituído por 14 mulheres e 01 homem, que extraem suas argilas do solo de seus sítios e modelam as peças com as mãos.

Crédito das fotos: Isabel Frankel
Todo processo acontece com ferramentas simples, sem uso de corantes ou esmaltes. As cores variadas vêm das diferentes argilas, da presença de óxidos de ferro na terra e da fumaça da lenha de eucalipto.
A produção das peças leva entre 10 e 20 dias, desde a extração da argila, que é coada e decantada para retirada de impurezas, fica em repouso e depois é cuidadosamente modelada manualmente, gerando formas orgânicas “como o nosso corpo”. Na sequência, passam por acabamentos e aparas, são polidas com pedra quartzo e secam por, pelo menos, 07 dias. A queima é feita em forno primitivo conhecido como “barranco”, ou em um forno pré-colombiano, ambos feitos artesanalmente. A queima em baixa temperatura ocorre, primeiramente, sem contato com o fogo, e depois em contato direto, o que deixa a peça incandescente ao final do processo. Para finalizar, as peças são impermeabilizadas com cera de abelha, também produzida localmente.
Cada artesã tem seu próprio forno e desenvolve suas peças livremente, se especializando em um determinado produto. Mas o grupo também se reúne para produzir encomendas maiores. São feitos copos, canecas, pratos, vasos, moringas, fruteiras, cumbucas e mais uma diversidade de objetos, todos com formas simples, arredondadas e sinuosas.
“A nossa inspiração é o nosso lugar, muitas dessas mulheres nunca saíram do município. A gente mora no paraíso mesmo…. Então são as galinhas, os patos, a igreja, a devoção, outras se dedicam aos troncos, as folhas”.
MARCIELI NATALI
Sobre quem cria

O grupo, formado majoritariamente por mulheres, trabalha na região de Vargem do Tanque, que está a 23 km do centro de Cunha e se orgulha por habitar “um paraíso” rural. São agricultoras, mães, donas de casa, cuidam dos bichos e das plantações. Inserido nessa rotina está o trabalho artesanal com a cerâmica, produzindo e ensinando. Afinal, desde 2019, elas são multiplicadoras desse conhecimento.
Participam de um projeto de roteiro turístico, recebem visitantes na comunidade para mostrar seu modo de vida e para promover o desenvolvimento sustentável do território. Destacam que todos os sítios preservam suas matas ciliares, não extraem argilas da beira do rio e não desmatam porque amam viver ali.
O grupo participa das feiras locais e está em constante capacitação para melhoria de sua produção. Já participaram de exposições, como a AB Casa Fair, Design Week de São Paulo e no Instituto Tomie Ohtake, além de já terem ganhado o Sétimo Prêmio Objeto Brasileiro.
Sobre o território

Vargem do Tanque é um bairro rural do município de Cunha, que está localizado no Alto Paraíba, cercado de serras, colinas e montanhas. É caracterizado pelas estações bem marcadas, forte produção agropecuária e é também destino de turismo no estado.
Com uma população de aproximadamente 22 mil habitantes distribuídos entre as zonas urbanas e rurais, Cunha tem o título de Capital Nacional da Cerâmica de Alta Temperatura. Na cidade, há uma produção muito diversificada de peças artesanais e artísticas que são comercializadas em todo país e também internacionalmente.
Para tanto, a cidade promove o Festival de Cerâmica e conta com o Instituto Cultural da Cerâmica de Cunha, que promove o ensino das técnicas para adolescentes e adultos.


























