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Caruaru – Pernambuco


Caruaru nasce a partir de uma feira, isso por si só carrega um potencial imenso de possibilidades para viajantes, habitantes locais e das cercanias. Caruaru surge como uma cidade mãe, que acolhe artesãos e comerciantes, lugar de pertencimento dos homens e mulheres nordestinos.

O Território 

De fazenda Cururu 

Povoado se tornou 

Foi crescendo, foi crescendo 

E à Vila, logo chegou 

João Vieira de Melo 

Coronel Cabra da Peste 

Da vila fez a cidade 

Hoje Capital do Agreste…” 

[Trecho de Capital do Agreste, de Nelson Barbalho, interpretada por Luiz Gonzaga]

Vista aérea de Caruaru, Pernambuco / Foto de divulgação

Considerada capital do agreste pernambucano, Caruaru está localizada a 136 km de Recife, capital do estado. Adentrando seus limites conseguimos perceber visualmente o bioma se transformando, o clima ficando mais árido e as matas mais baixas. Começamos a nos aproximar da paisagem caatingueira. Ainda na BR-232, uma das vias de chegar na cidade, avistamos o Morro do Bom Jesus, o perímetro urbano acontece todo em volta dele. 

Caruaru nasceu por ser caminho dos gados que eram levados da zona da mata para o agreste e sertão, com o avanço da pecuária no estado. Cortada por 2 rios, Capibaribe e Ipojuca, se tornou rota de mascates e tropeiros que paravam na Fazenda Caruru para comprar, trocar e vender mercadorias e animais, e depois seguiam viagem. 

Em 1781, autoridades locais, observando a movimentação comercial já instalada no território, mandaram construir uma igreja para Nossa Senhora da Conceição, consolidando a região como importante polo comercial e cultural do estado.

Como nasce um polo criativo?

Caruaru nasce a partir de uma feira, isso por si só carrega um potencial imenso de possibilidades para viajantes, habitantes locais e das cercanias. 

O processo artesanal estava presente nas feiras de forma inerente, seja através do couro, que veste os vaqueiros, das bolsas e cestos tecidos com algodão e fibras vegetais, das panelas ou bonecas de barro, dentre tantas linguagens que permeiam as atividades manufatureiras. 

“…Tem cesto, balaio, corda 
Tamanco, gréia, tem cuêi-tatu 
Tem fumo, tem tabaqueiro 
Feito de chifre de boi zebu 
Caneco alcoviteiro 
Peneira boa e mé de uruçu 
Tem carça de arvorada 
Que é pra matuto não andar nu 

Tem rede, tem balieira 
Mode menino caçar nambu 
Maxixe, cebola verde 
Tomate, cuentro, couve e chuchu 
Armoço feito nas torda 
Pirão mexido que nem angu 
Mobilha de tamburete 
Feita do tronco do mulungu 

Tem louça, tem ferro velho 
Sorvete de raspa que faz jaú 
Gelada, cardo de cana 
Fruta de palma e mandacaru 
Bonecos de Vitalino 
Que são conhecidos inté no Sul 
De tudo que há no mundo 
Tem na Feira de Caruaru. “ 

O próprio Onildo Almeida, compositor do baião Feira de Caruaru, conhecido na voz de Luiz Gonzaga, assume em entrevista que: 

“Não tem rima em U que alcance a dimensão da feira”  

Feira no centro da cidade de Caruaru em 1920 / Foto de divulgação

Caruaru surge como uma cidade mãe, que acolhe artesãos e comerciantes, lugar de pertencimento dos homens e mulheres nordestinos. O município, por suas raízes fortes fincadas no solo fértil da Feira, pariu artistas-artesãos reconhecidos mundialmente como Mestre Vitalino. Das margens do rio Ipojuca, louceiras retiravam o barro que se transformava em panelas que alimentavam o povo. Assim, Mestre Vitalino conheceu seu ofício. A mãe do mestre era louceira, Vitalino desde muito novo começou a brincar e reproduzir cenas cotidianas do povo do campo através do barro e levava para vender junto à mãe na feira.  

Como bom mestre, Vitalino compartilhou seus saberes e deixou discípulos como Zé Caboclo e Manuel Eudócio, que por sua vez também se tornaram mestres e seguiram perpetuando a tradição do barro. Assim o Alto do Moura se tornou o maior centro de arte figurativa das américas, segundo a UNESCO. E Vitalino tornou-se um dos principais nomes da arte figurativa das Américas. 

Crédito das fotos: Theo Grahl

Dentro do universo do cordel, linguagem literária considerada patrimônio imaterial pelo IPHAN, é difícil desvincular a parte textual da imagética da xilogravura. Mesmo os cordelistas que não dominavam a técnica, como Olegário Fernandes, escreviam os cordéis e encomendavam as gravuras. Assim nasceram mestres cordelistas e xilogravuristas como Dila que escrevia, ilustrava e cantava seus cordéis em feiras e espaços culturais da cidade. 

Caruaru se traduz no encontro do cordel, com o couro do vaqueiro, com a banda de pífanos de taboca, com os bonecos de barro do alto do Moura…essa mistura de linguagens artesanais que representam o povo nordestino. Cenas muito bem representadas nos minimundos de Marliete Rodrigues, filha de Zé Caboclo e Celestina, conhecida por suas miniaturas da vida cotidiana feitas com muito talento no barro. 

Como se mantém um processo criativo?

A perpetuação de saberes acontece através de estímulos, seja do pai ou da mãe que ensina os filhos, ou do poder público que percebe o potencial cultural e econômico da atividade e incentiva artesãos e artistas locais, apoiando ateliês, aulas, prêmios de salvaguarda, ou espaços de comercialização e escoamento das produções. 

Caruaru nasceu a partir desses estímulos e se mantém até os dias atuais. Os processos artesanais atravessam a vida da população cotidianamente, gerando curiosidade e desejo de experimentação. 

No alto do Moura é onde percebemos isso com mais intensidade. É comum que todos de uma mesma família trabalhem com o barro. Assim aconteceu com a família de Mestre Vitalino, de Zé Caboclo, de Manuel Eudócio, de Galdino e Luiz Antônio, que criou 10 filhos através de seu ofício. 

Para Amélia, museóloga responsável pelo Museu do Barro de Caruaru: 
 
“O Alto do Moura é um lugar mágico, eu vejo um útero materno. Todo dia ali está nascendo e se criando. A hora que você chegar lá vai ter alguém fazendo uma peça de barro e essa peça está nascendo e sendo criada. Então é esse lugar vivo, onde pulsa a cultura da arte do barro no Alto do Moura”. 

Artesanato da Família Zé Caboclo

Esse útero criou o coletivo de mulheres artesãs Flor do Barro, transformando a cena, predominantemente masculina, da arte figurativa. Metamorfoseando a estética das peças, com mais detalhes e acabamentos. O coletivo tem como presidenta a Mestra Nicinha, discípula de Mestre Galdino, com mais de 50 anos de experiência com o barro, além de Mestras como Marliete Rodrigues e Socorro Rodrigues, filhas de Zé Caboclo, ambas patrimônios vivos de Pernambuco, reconhecidas pelo governo do estado. 

Ao caminhar pelo Alto do Moura encontramos museus vivos, casas onde os principais mestres viveram e produziram durante toda a vida, continuam sendo espaço de produção e criação de seus filhos, netos e bisnetos. 

No pátio da feira de Caruaru, inaugurado no ano de 1999, também encontramos o primeiro museu de cordel do mundo, localizado no Parque 18 de Maio, na Feira de Artesanato, é uma homenagem ao cordelista Olegário Fernandes da Silva, que descreveu a história do homem nordestino de forma extrovertida e poética. O acervo do Museu conta com cordéis tradicionais, antigos e raros, fotografias de poetas e livros sobre cordel. Próximo ao pátio de eventos da cidade também se encontra o Memorial Mestre Dila, atualmente mediado por seu filho Valdez Soares, também cordelista. Mestre Dila deixou discípulos como Espingarda do Cordel, cordelista, xilogravurista e arte-educador premiado pelo IPHAN que dissemina seus saberes em espaços como a Academia Caruaruense de Cordel.  

Na contemporaneidade também encontramos espaços como a Oficina Embuá, fundada por Mara (Ythalla Maraisa) e Pombo (Paloma), formadas em design pela UFPE de Caruaru, mas que direcionam suas criações para processos artesanais de gravura e impressão, também são responsáveis por oficinas de gravura em escolas e instituições de arte e cultura disseminando a técnica no agreste Pernambucano.  

A oficina Embuá também é uma das realizadoras da primeira edição da “GRR! Bienal da Gravura no Agreste”, mostra que reúne 1.025 obras de artistas locais, nacionais e internacionais expostas junto a palestras, oficinas e atividades arte-educativas por 10 dias na cidade de Caruaru. Os homenageados da Bienal são Mestre Dila e Mestre J. Borges, reforçando a importância da manutenção da memória para perpetuação de saberes. 

Caruaru – Pernambuco


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